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O efeito das Mudanças Climáticas na produção e consumo de alimentos

Precisamos investir em ciência e dados de qualidade, utilizando inteligência artificial e modelos complexos para entender melhor as relações entre alimentação e saúde. A colaboração entre pesquisadores de diferentes áreas é vital para encontrar soluções eficazes

Por Caio Huck Spirandelli
Universo Racionalista

A nutricionista e pesquisadora, Aline Martins de Carvalho, fala sobre as complexidades das mudanças climáticas e seu impacto direto na nutrição e nos sistemas alimentares. A discussão ilumina a intersecção entre obesidade, desnutrição e os desafios climáticos, destacando a importância crítica da Rede Resiclima e das políticas públicas efetivas.

Ao explorar os efeitos das mudanças climáticas na produção e no consumo de alimentos, Aline oferece insights valiosos sobre como garantir um futuro sustentável e saudável através da adaptação dos sistemas alimentares e da promoção de práticas alimentares responsáveis.

A conversa abrange desde o papel fundamental da educação alimentar na redução do desperdício até a necessidade de uma colaboração mais ampla para enfrentar as questões de segurança alimentar agravadas pelas mudanças climáticas.

Aline Martins de Carvalho é nutricionista, mestre e doutora em Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Realizou estágios de pesquisa junto à Harvard School of Public Health e University of Michigan. Atualmente é professora doutora junto ao Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, participa do Grupo de Estudos em Saúde Planetária do IEA/USP, da Comissão Especial de Sustentabilidade, Mudanças Climáticas e Cultura Alimentar da Abeso, da Rede de Estudos sobre Mudanças Climáticas (Resiclima) e é coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão da USP Sustentarea.

Esta é a segunda de uma série especial de cinco entrevistas com pesquisadores ligados à Rede Resiclima.

Qual é a sua formação e como você se conectou à Rede Resiclima?

Eu sou nutricionista de formação e trabalhei no mestrado e no doutorado com consumo de carne na população brasileira e o impacto que isso tinha na saúde das pessoas e no meio ambiente. Durante o meu mestrado, percebi que precisava fazer algo para que as pessoas soubessem sobre o meu trabalho, já que, em 2012, não se falava muito sobre a relação entre o consumo de carne e o desmatamento. Começamos uma atividade no restaurante universitário da USP onde não servíamos carne uma vez por mês, e isso gerou um projeto de divulgação científica que acabou se tornando o núcleo de pesquisa e extensão Sustentara.

O que você entende por sindemia e como ela se relaciona com as mudanças climáticas?

O termo sindemia foi usado pela primeira vez nos anos 1990 para descrever a sinergia de várias epidemias. Em 2019, um artigo trouxe à tona a ideia de uma sindemia global, que envolve obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. Essas epidemias interagem entre si, afetando a saúde da população e do planeta. É um dos principais desafios de saúde do século XXI, impulsionado por fatores como urbanização e sistemas alimentares.

Como você define sistemas alimentares e sua complexidade?

Os sistemas alimentares abrangem todas as etapas desde a produção, processamento, venda, consumo até o descarte de alimentos. Eles não são uma cadeia linear, mas sim um sistema complexo com muitos agentes interagindo entre si. O objetivo é fornecer comida para todos, mas vemos que ainda existem pessoas passando fome e uma alta prevalência de obesidade.

Como a desnutrição e a obesidade podem coexistir?

A desnutrição é um problema antigo, enquanto a obesidade é mais recente. No Brasil, de acordo com pesquisas do IBGE, cerca de 10 milhões de pessoas estão em insegurança alimentar grave, o que significa que elas não têm acesso a alimentos suficientes. Ao mesmo tempo, mais de 60% da população tem excesso de peso. Isso acontece porque a alimentação é um fator modificável e está relacionada a várias doenças crônicas.

O que é um sistema alimentar sustentável?

Um sistema alimentar sustentável deve ser capaz de fornecer alimentos de maneira que respeite o meio ambiente e promova a saúde das pessoas. Desenvolvi um índice multidimensional para avaliar a sustentabilidade dos sistemas alimentares no Brasil, levando em conta indicadores nutricionais, sociais, econômicos e ambientais. Esse índice ajuda a classificar os estados brasileiros em termos de práticas sustentáveis.

Como as mudanças climáticas afetam a produção de alimentos?

As mudanças climáticas, causadas pela emissão de gases de efeito estufa, impactam diretamente a produção de alimentos. No Brasil, cerca de 70% das emissões estão relacionadas à produção de alimentos, incluindo o desmatamento. Além disso, as mudanças climáticas podem reduzir a qualidade nutricional dos alimentos, afetando a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, como a polinização.

Quais são os maiores desafios para garantir a segurança alimentar?

Os desafios incluem eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, que afetam a produção e o preço dos alimentos. Os mais vulneráveis são os que mais sofrem com essas mudanças, pois têm menos recursos para se adaptar. É fundamental implementar políticas públicas que garantam a segurança alimentar e promovam a dignidade das pessoas na alimentação.

Que intervenções você vê como necessárias para melhorar os sistemas alimentares?

Precisamos de intervenções em múltiplas frentes, desde ações individuais, como a redução do consumo de carne, até políticas públicas que garantam acesso a uma alimentação saudável e sustentável. O Programa Nacional de Alimentação Escolar é um exemplo positivo, promovendo a alimentação adequada para crianças. Também é importante promover a conexão entre os consumidores e os produtores de alimentos.

Qual é a importância do Guia Alimentar para a População Brasileira?

O Guia Alimentar é fundamental para orientar a população sobre uma alimentação saudável, priorizando alimentos in natura e minimamente processados. Ele ajuda a moldar políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que visa melhorar a qualidade da alimentação nas escolas. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para que as pessoas tenham acesso a alimentos saudáveis.

Como você vê o futuro da produção de alimentos no contexto das mudanças climáticas?

O futuro da produção de alimentos será marcado pela dualidade entre a tecnologia e a produção sustentável. As indústrias podem se aproveitar da demanda por alimentos saborosos e acessíveis, mas precisamos garantir que a produção de alimentos siga sendo diversificada e resiliente. É essencial que as intervenções sejam testadas e adaptadas para atender às necessidades da população e do meio ambiente.

Quais são os próximos passos para avançar nessas questões?

Precisamos investir em ciência e dados de qualidade, utilizando inteligência artificial e modelos complexos para entender melhor as relações entre alimentação e saúde. A colaboração entre pesquisadores de diferentes áreas é vital para encontrar soluções eficazes. Além disso, é importante estimular a consciência pública sobre a importância de uma alimentação saudável e sustentável.

Convido todos a se engajar na melhoria da alimentação e na promoção de sistemas alimentares sustentáveis. Somente através de ações coletivas e individuais poderemos garantir um futuro melhor para todos.

Assista à entrevista na íntegra.

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