Artigos

Da Baixada Fluminense para o futuro: meninas, ciência e justiça climática nas escolas públicas

Por Cleonice Puggian, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Alexandra Crivel, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

O aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como secas, inundações e deslizamentos de terra, coloca em risco a vida de cada vez mais pessoas no mundo todo. E o Brasil é um dos países mais vulneráveis aos impactos desse fenômeno, que também afeta diretamente a economia e o desenvolvimento social do país.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Brasil está entre os 20 países mais suscetíveis aos impactos das mudanças climáticas.

O país já enfrenta os efeitos do aumento da temperatura média global, como o aumento da frequência de secas e inundações, o derretimento das geleiras e o aumento do nível do mar.

Estudos demonstram que as mulheres são particularmente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, e mais propensasa a serem deslocadas de suas casas devido a eventos extremos. Essa vulnerabilidade se deve a diversos fatores, como a menor renda, o menor acesso à educação e à saúde, e a maior responsabilidade pelos cuidados com a família.

Futuro justo, sustentável e igualitário

O relatório “Justiça climática feminista: uma estrutura para ação”, publicado pela ONU Mulher em 2023, oferece um caminho para alcançar um futuro justo, sustentável e igualitário para as mulheres.

Reconhecendo a interconexão entre as crises climáticas e de gênero, o documento propõe uma estrutura abrangente que leva em consideração as diferentes experiências e necessidades de mulheres e meninas.

A estrutura se baseia em quatro dimensões interligadas: reconhecimento, redistribuição, representação e reparação.

O reconhecimento visa visibilizar e valorizar o papel crucial das mulheres na ação climática e na gestão ambiental. A redistribuição busca assegurar acesso equitativo a recursos e oportunidades, incluindo financiamento climático e tecnologias verdes.

A representação garante a participação plena e significativa de mulheres e pessoas de gêneros diversos na tomada de decisões climáticas.

Já a reparação tem como objetivo reparar os danos históricos e contemporâneos causados pelas mudanças climáticas e pelas desigualdades de gênero.

Meninas pelo Clima

Diante desse cenário, o Laboratório de Pesquisa em Educação, Natureza e Sociedade (LabPENSo), na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), elaborou o projeto Meninas pelo Clima.

A iniciativa conta com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Iniciado em 2025, o projeto já foi implementado em sete escolas públicas estaduais do município de Duque de Caxias, abrangendo 10 turmas e cerca de 230 estudantes, sendo 80% do curso de formação de professores em nível médio.

As atividades são organizadas em três unidades temáticas ao longo do ano. A primeira unidade, dedicada ao diagnóstico das vulnerabilidades climáticas, convida as estudantes a reconhecerem as questões ambientais que atingem cotidianamente o território da Baixada Fluminense.

Nessa etapa, ocorrem atividades vocacionais. Nelas, as jovens podem desenhar seu futuro (acadêmico e profissional) e imaginar possibilidades de atuação em carreiras STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A atividade conta com o apoio da inteligência artificial (ChatGPT).

Em seguida, as estudantes produzem registros fotográficos sobre os impactos das mudanças climáticas com base na metodologia Photovoice, gerando um painel colaborativo com o Padlet. As fotos e vídeos são apresentados em exposições virtuais e experiências imersivas com realidade virtual.

Em uma segunda etapa, as estudantes iniciam a elaboração de propostas de intervenção ao explorar ferramentas digitais em atividades inspiradas pelos urbanismos feministas e Afrofuturismos.

Elas participam de oficinas de drones, georreferenciamento e criação de websites autorais. Em seguida, examinam o potencial de ferramentas computacionais (Scratch) e eletrônicas (Arduino/ESP32) para a coleta de dados meteorológicos, utilizando a estação didática “Luciene Medeiros”.

Desenho produzido pela estudante Clara, 16 anos, durante a atividade.
A própria estudante como uma neurocientista, produzida com apoio da inteligência artificial, durante a atividade

Na terceira unidade, as alunas elaboram pôsteres, participam de lives com professoras-pesquisadoras e constroem coletivamente uma carta de proposições voltada à justiça climática feminista.

A proposta é articular demandas do território às discussões contemporâneas sobre gênero, meio ambiente e direito à cidade.

Esse percurso culmina no evento “Todas pelo Clima – COP das Meninas”, espaço de diálogo entre comunidade escolar, pesquisadoras, movimentos sociais e representantes do poder público.

Durante o evento, as estudantes apresentam as propostas desenvolvidas ao longo do projeto. Em 2025, a carta elaborada pelas participantes foi apresentada à Frente Parlamentar pela Justiça Climática da Alerj, e incluiu, entre suas proposições, a criação do Parque Estadual do Manguezal do Recôncavo da Guanabara. A proposta, inclusive, tem potencial para desdobrar-se em projeto de lei.

Estudante preparando óculos de realidade virtual para assistir a um vídeo em 360o sobre a floresta Amazônica.

Transpondo barreira de gênero

Apesar dos avanços no acesso à educação, ainda persistem barreiras estruturais que afastam mulheres, especialmente nas áreas de STEM, como estereótipos de gênero, ausência de referências femininas, desigualdade de oportunidades e ambientes acadêmicos pouco inclusivos.

Queremos contribuir para a redução da desigualdade de gênero nas carreiras de ciência e tecnologia. De acordo com o relatório da Unesco intitulado “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)”, são quatro grupos de fatores que influenciam a participação, o avanço e o desempenho de meninas e mulheres na educação em STEM: atores individuais, familiares, escolares e sociais.

Entre os fatores familiares estão as crenças e expectativas dos pais, o nível de instrução dos pais, os recursos econômicos e o apoio dos pais, e a influência dos pares (amigos).

Os recursos econômicos da maioria das estudantes são bastante exíguos, limitando o acesso a aulas de reforço, materiais e equipamentos tecnológicos, visitas a museus e centros culturais. O sucateamento do transporte e a baixa oferta de equipamentos culturais em Duque de Caxias reforçam essas dificuldades.

É importante ressaltar, ainda segundo o mesmo relatório, que famílias com recursos limitados não dispõem de fundos, tempo ou conexões para proporcionar a aprendizagem de matemática e de ciências para seus filhos.

Entre as estudantes participantes da pesquisa, apenas 20% tinham mães com ensino superior completo, enquanto outras 44% das mães não tinham concluído o ensino médio.

Os fatores de âmbito escolar listados que impactam nas escolhas das estudantes são as características dos docentes, as estratégias de ensino adotadas, os currículos e materiais didáticos, além dos métodos utilizados nas avaliações.

Em relação às características dos docentes, o relatório sugere que o desempenho mais elevado das estudantes em ciências e matemática está relacionado a docentes com mais experiência de ensino e com mais satisfação geral em suas carreiras.

Portanto, o projeto propõe uma pesquisa participante. E acreditamos que seja uma contribuição efetiva no contexto escolar, pois atua na formação de docentes e na construção de uma proposta curricular que pode ser incorporada ao currículo das escolas estaduais.

Queremos inspirar as jovens por meio do contato com outras pesquisadoras e favorecer a sensibilização e mobilização da comunidade local sobre a importância da preservação ambiental e do enfrentamento das mudanças climáticas, formando lideranças femininas.

Acreditamos que este projeto possa contribuir para a educação ambiental das participantes e da comunidade local e inspirar outras iniciativas pelo país.


A divulgação deste artigo foi financiada pela Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Cleonice Puggian, Docente e coordenadora o projeto Meninas pelo Clima: Ciência, Tecnologias e Inovação para o Enfrentamento das Mudanças Climáticas (2025–2027), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Alexandra Crivel, bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento (CNPq) no projeto Meninas pelo Clima, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Fonte: site The Conversation . Artigo original aqui.

Luna

Recent Posts

Refúgios climáticos: o que o Brasil pode fazer antes do próximo verão para proteger vidas

Ana Terra Amorim-Maia, BC3 - Basque Centre for Climate Change; Universidade de São Paulo (USP)…

1 dia ago

Rexistir estreia em Caruaru e transforma desigualdade hídrica em memória, denúncia e esperança

Documentário de Wilfred Gadêlha terá primeira exibição no dia 14 de junho, às 20h30, no…

2 meses ago

Livro infantil alerta para o risco de extinção de animais brasileiros

Escrito em versos, S.O.S. Bichos Brasil apresenta a situação de 16 espécies que habitam diversas…

5 meses ago

Luto climático: perdas causadas por tragédias socioambientais são mais graves para as mulheres

Autoras do Sul global, como Farhana Sultana, vêm desenvolvendo o conceito de Justiça Climática de…

5 meses ago

Simpósio nacional sobre Modelos Baseados em Agentes abre inscrições para edição inaugural

Estão abertas as inscrições e submissões de trabalhos para o 1º Simpósio Interdisciplinar Brasileiro de…

5 meses ago

Publicação torna conceitos de adaptação à mudança do clima mais acessíveis

Com os impactos da mudança do clima cada vez mais presentes no cotidiano da sociedade…

5 meses ago